A menopausa também é uma transição neuroendócrina. Entenda o que a neurociência está descobrindo sobre cérebro, memória, sono, humor e fogachos nessa fase.
Quando pensamos em menopausa, pensamos quase imediatamente nos ovários. Os ovários diminuem a produção hormonal, a menstruação fica irregular até desaparecer e começam os sintomas.
Essa explicação não está errada. Mas está incompleta.
A menopausa é uma transição reprodutiva, sim. Só que hoje sabemos que ela também é uma importante transição neuroendócrina. Ou seja: enquanto os ovários estão mudando, o cérebro também está mudando.
E entender isso ajuda a explicar por que uma mulher pode começar a sentir alterações no sono, memória, humor, temperatura corporal, energia e capacidade de concentração anos antes da última menstruação.
A neurocientista Lisa Mosconi, diretora da Women's Brain Initiative da Weill Cornell Medicine e uma das principais pesquisadoras do mundo sobre cérebro feminino, descreveu a menopausa como uma "transição neurológica dinâmica".
É uma mudança importante de perspectiva. Porque talvez a pergunta não seja apenas "o que está acontecendo com os meus ovários?", mas também "como o meu cérebro está respondendo a essa nova realidade hormonal?".
Se quisermos ser cientificamente precisas, não podemos simplesmente retirar os ovários da história. O envelhecimento dos folículos ovarianos é central para a transição menopausal. Conforme a atividade ovariana muda, a produção de estradiol e progesterona se torna mais irregular e, posteriormente, diminui.
Mas ovários e cérebro nunca funcionaram separadamente. Eles fazem parte de um mesmo sistema: o eixo hipotálamo-hipófise-ovários.
Durante toda a vida reprodutiva, existe uma comunicação constante entre cérebro e ovários. O cérebro envia sinais. Os ovários respondem. Os hormônios produzidos pelos ovários retornam ao cérebro e modulam uma enorme quantidade de processos. Quando a função ovariana muda, essa conversa muda também.
Por isso, dizer que "a menopausa começa no cérebro" é uma provocação útil para romper uma visão antiga segundo a qual menopausa seria simplesmente um ovário que deixou de produzir hormônios.
Na prática, o que a mulher sente é resultado de uma reorganização que envolve ovários, cérebro, metabolismo, sistema vascular, ossos, músculos e muitos outros tecidos.
Aqui está uma das informações mais importantes para entender a menopausa. O estrogênio não serve apenas para menstruar ou engravidar.
Existem receptores de estrogênio espalhados pelo cérebro. Eles estão presentes em regiões relacionadas à memória, aprendizado, humor, sono, termorregulação e outras funções essenciais. Pesquisas descrevem receptores em áreas como hipotálamo, hipocampo, córtex pré-frontal, amígdala e córtex cingulado.
O estradiol também participa de processos ligados a fluxo sanguíneo cerebral, metabolismo energético, sinalização neuronal, inflamação e estresse oxidativo.
Isso ajuda a entender uma pergunta que escuto frequentemente: "como meus hormônios podem estar relacionados ao fato de eu não conseguir lembrar uma palavra?" Porque o hormônio não está agindo apenas no útero ou nos ovários. Ele está conversando com o cérebro.
A perimenopausa não costuma começar com uma chave sendo desligada. Ela é uma transição. Os hormônios podem oscilar bastante antes de permanecerem em níveis mais baixos.
E é justamente por isso que algumas mulheres começam a perceber sintomas enquanto ainda menstruam regularmente ou quase regularmente.
A menstruação pode continuar chegando e, ao mesmo tempo, aparecerem dificuldade para dormir, irritabilidade, ansiedade, fogachos, suor noturno, dificuldade de concentração, lapsos de memória, cansaço, mudanças de humor ou aquela sensação difícil de explicar de que "meu cérebro não está funcionando como antes".
Segundo a The Menopause Society, entre 40% e 60% das mulheres na meia-idade relatam sintomas cognitivos, como esquecimento, dificuldade de encontrar palavras e problemas de concentração, durante a transição menopausal.
Isso já deveria mudar a forma como conversamos sobre menopausa. Porque muitas mulheres passam anos interpretando esses sinais como distração, excesso de trabalho, incompetência, ansiedade ou simplesmente envelhecimento. Quando, na verdade, pode existir também um componente neuroendócrino importante.
Esquecer por que entrou em um cômodo. Não lembrar o nome de alguém conhecido. Ter a palavra "na ponta da língua" e não conseguir encontrá-la. Precisar reler a mesma frase. Perder o fio de uma conversa. Sentir que demora mais para organizar mentalmente várias tarefas.
Essas experiências são frequentemente agrupadas sob o termo brain fog, ou névoa mental. E não se trata apenas de imaginação.
Em 2024, a pesquisadora Pauline Maki, uma das principais especialistas em cognição e menopausa, publicou com Nicole Jaff uma revisão mostrando que estudos longitudinais encontram pequenas, mas consistentes, alterações de desempenho de memória durante a passagem para a perimenopausa que não são explicadas apenas pelo avanço da idade.
Brain fog na menopausa não significa automaticamente demência. Na maioria das mulheres, o desempenho cognitivo continua dentro da normalidade. A própria The Menopause Society ressalta que demência na meia-idade é rara e que essas alterações geralmente são sutis.
Isso não significa ignorar alterações importantes ou progressivas, que devem ser avaliadas por um profissional. Significa parar de transformar cada lapso de memória em uma sentença sobre o futuro.
Talvez você pense no fogacho como um problema hormonal. Ele é. Mas sua manifestação depende de circuitos cerebrais.
O hipotálamo é uma pequena região do cérebro envolvida, entre outras funções, no controle da temperatura corporal. Durante a transição menopausal, a redução da sinalização estrogênica afeta neurônios hipotalâmicos envolvidos na termorregulação, incluindo os chamados neurônios KNDy.
KNDy é a sigla usada porque esses neurônios produzem três moléculas importantes: kisspeptina, neuroquinina B e dinorfina. Com a mudança hormonal, esse sistema pode se tornar mais excitável e a zona de conforto térmico do organismo se estreita.
Uma pequena alteração de temperatura que antes seria tolerada pode passar a disparar uma resposta intensa para dissipar calor. Vasodilatação. Calor súbito. Suor. E, depois, algumas vezes, frio. É o fogacho.
Essa compreensão foi tão importante que levou ao desenvolvimento de tratamentos não hormonais que atuam justamente na sinalização desses circuitos cerebrais. Ou seja: até um dos sintomas mais conhecidos da menopausa tem uma forte dimensão neurológica.
Essa é uma das descobertas mais fascinantes dos últimos anos.
Em 2021, Lisa Mosconi e sua equipe estudaram mulheres na pré-menopausa, perimenopausa e pós-menopausa usando diferentes técnicas de neuroimagem. Eles observaram diferenças relacionadas à transição menopausal em estrutura cerebral, conectividade, metabolismo da glicose, fluxo sanguíneo, produção de energia cerebral e outros biomarcadores.
As mudanças apareceram principalmente em regiões envolvidas em funções cognitivas superiores. Mais interessante ainda: os pesquisadores compararam as mulheres com homens da mesma faixa etária e concluíram que vários desses efeitos estavam relacionados ao envelhecimento endócrino feminino, e não simplesmente ao envelhecimento cronológico.
Isso muda completamente a narrativa. Porque durante décadas a menopausa foi tratada principalmente como o fim da fertilidade. Mas o cérebro também está atravessando essa passagem.
Quando ouvimos "mudanças no cérebro", é fácil imaginar deterioração. Só que não foi exatamente isso que os pesquisadores encontraram.
No mesmo estudo de Mosconi, vários biomarcadores cerebrais tenderam a se estabilizar depois da menopausa. Em algumas regiões importantes para a cognição, o volume de substância cinzenta apresentou recuperação na pós-menopausa, e essa recuperação esteve associada à preservação do desempenho cognitivo.
Isso sugere uma capacidade de adaptação. O cérebro não está simplesmente "apagando". Ele está se reorganizando diante de um ambiente hormonal diferente.
Essa talvez seja uma das informações mais importantes para uma mulher que atravessa essa fase. Menopausa não precisa ser interpretada exclusivamente como perda. Do ponto de vista cerebral, existe também adaptação.
Em 2024, a equipe de Lisa Mosconi publicou outro estudo fascinante. Usando PET, os pesquisadores conseguiram observar receptores de estrogênio no cérebro de 54 mulheres saudáveis entre 40 e 65 anos. Havia mulheres na pré-menopausa, perimenopausa e pós-menopausa.
O que encontraram? A densidade de receptores de estrogênio era progressivamente maior durante a transição, sendo mais elevada na pós-menopausa do que na pré-menopausa.
Uma das hipóteses dos pesquisadores é que isso represente uma resposta compensatória: diante de uma menor disponibilidade de estrogênio, as células aumentariam a expressão de receptores para tentar captar melhor o hormônio disponível. Em algumas regiões cerebrais, maior densidade de receptores também esteve associada a sintomas cognitivos e de humor.
E aqui existe uma curiosidade extraordinária. Naquela pequena amostra experimental, uma medida baseada na densidade de receptores em quatro regiões cerebrais conseguiu diferenciar mulheres pré e pós-menopáusicas com 100% de precisão.
Isso não significa que temos um "exame cerebral para diagnosticar menopausa". O estudo foi pequeno e experimental. Mas mostra o tamanho da reorganização neuroendócrina que pode estar acontecendo.
Enquanto você pensa "meu corpo enlouqueceu", seu cérebro pode estar literalmente tentando se adaptar a um novo ambiente hormonal.
Esse é outro erro da forma tradicional de pensar os sintomas. A mulher chega ao consultório com insônia. Depois aparece ansiedade. Depois dificuldade de memória. Depois cansaço. Depois ganho de peso. E cada sintoma é tratado como se tivesse surgido em um corpo diferente.
Mas fisiologia não funciona assim.
Dormir mal afeta memória, humor, apetite, percepção de estresse e recuperação física. Fogachos noturnos podem fragmentar o sono. Estresse crônico pode piorar a percepção dos sintomas. Sedentarismo influencia saúde cardiovascular, metabólica e cerebral. Perda de massa muscular altera capacidade funcional e metabolismo. E alterações de humor também interferem em sono e cognição.
Uma revisão sobre cognição na perimenopausa encontrou justamente relações entre sintomas vasomotores, sintomas afetivos, sono e desempenho cognitivo.
O corpo não separa tudo em gavetas. Talvez nós é que tenhamos feito isso.
Aqui está o ponto em que eu acho que precisamos abandonar duas ideias opostas.
A primeira é acreditar que a mulher simplesmente precisa suportar tudo porque "menopausa é natural". A segunda é procurar uma única intervenção capaz de resolver, sozinha, tudo o que está acontecendo.
A transição menopausal é multifatorial. Por isso, o cuidado também precisa ser.
Existem situações em que terapia hormonal pode ser indicada e situações em que não é a melhor opção. Existem tratamentos não hormonais com boa evidência para sintomas específicos. Cada mulher precisa avaliar riscos, benefícios, histórico clínico e intensidade dos sintomas individualmente com profissionais qualificados. A terapia hormonal, por exemplo, continua sendo considerada o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores em mulheres elegíveis.
Mas tratamento médico e estilo de vida não são necessariamente escolhas concorrentes. É aí que entra uma parte da conversa sobre menopausa que considero fundamental: o que fazemos todos os dias também envia sinais ao cérebro.
Quando criei o Hormonia, eu não queria ensinar mulheres simplesmente a "combater um fogacho". Queria olhar para o organismo como um sistema.
Porque se a menopausa afeta sono, sistema nervoso, metabolismo, músculos, ossos, cognição, humor e percepção corporal, não faz sentido trabalhar apenas uma variável.
Por isso, no Hormonia, usamos práticas de movimento, força, yoga, respiração, consciência corporal, organização do sono, alimentação, manejo do estresse e construção de novos hábitos.
Não porque exista evidência de que uma postura de yoga específica seja capaz de "aumentar estrogênio" ou porque respirar de determinada maneira seja uma cura para menopausa. Isso seria simplificar novamente o problema.
O valor está em criar, de forma consistente, um ambiente mais favorável para um organismo que está se adaptando.
E já existem dados interessantes nessa direção. Uma meta-análise publicada em 2024, reunindo 11 ensaios clínicos randomizados e mais de mil mulheres, encontrou associações entre exercícios mente-corpo, incluindo yoga, tai chi, Pilates, qigong e práticas de atenção plena, e melhora de qualidade do sono, ansiedade, sintomas depressivos, fadiga e densidade mineral óssea.
A atividade física também vem sendo estudada por seus efeitos sobre saúde emocional, sono, condicionamento e saúde cognitiva durante e depois da transição menopausal, embora o grau de evidência varie conforme o desfecho.
Yoga e exercício, por exemplo, não devem ser vendidos como tratamentos comprovados para eliminar fogachos: a posição de 2023 da The Menopause Society considera insuficiente a evidência para recomendá-los especificamente como terapia de sintomas vasomotores.
Mas seria igualmente equivocado concluir que, por isso, movimento, sono, força, alimentação e práticas mente-corpo não importam. Eles importam para muitos outros componentes da saúde da mulher justamente nessa fase.
Existe uma ideia central no Hormonia que considero especialmente importante: o organismo aprende pela repetição.
Não fazemos uma prática respiratória uma vez e esperamos que tudo mude. Não fazemos uma aula de força e construímos músculo. Não dormimos bem uma noite e restauramos meses de privação de sono. Não meditamos cinco minutos e anulamos anos de estresse.
O corpo responde à frequência dos estímulos que recebe: movimento repetido, sono suficientemente regular, exposição à luz e rotina circadiana, proteína e nutrientes adequados, carga muscular, momentos reais de recuperação, respiração e presença, contato com o próprio corpo.
É o conjunto desses sinais, mantidos no tempo, que vai modificando o terreno no qual essa mulher atravessa a transição.
Esse é o princípio. Não obrigar o corpo a voltar a ser o que era aos 30. Dar recursos para ele se adaptar ao que está acontecendo agora.
Quando uma mulher de 45, 48 ou 52 anos começa a esquecer palavras, acordar às três da manhã, sentir calor sem motivo aparente, perder energia ou perceber uma ansiedade que nunca teve, é compreensível que pense: "o que aconteceu comigo?"
Durante muito tempo, faltou uma explicação melhor. Hoje estamos começando a enxergar essa fase de outra maneira.
Os ovários mudam. Os hormônios mudam. A comunicação entre ovários e cérebro muda. O cérebro responde. Alguns circuitos ficam temporariamente mais vulneráveis. Outros se adaptam. E, depois de um período de reorganização, vários biomarcadores parecem encontrar uma nova estabilidade.
Isso não diminui os sintomas. Não significa que uma mulher precise aceitá-los em silêncio. Significa que existe uma diferença enorme entre interpretar essa fase como falência e compreendê-la como transição.
Quando entendemos o que está acontecendo, conseguimos fazer escolhas melhores sobre movimento, alimentação, sono, estresse, tratamentos e estilo de vida. É exatamente essa mudança de consciência que eu quero provocar com o Hormonia.
Não ensinar uma mulher a lutar contra o próprio corpo. Ensinar a conhecê-lo suficientemente bem para saber como cuidar dele nessa nova fase.
Porque talvez a grande pergunta da menopausa não seja "como faço meu corpo voltar ao que era?". Talvez seja "do que meu cérebro e meu corpo precisam agora para funcionar bem nessa nova etapa?". E essa é uma conversa muito mais interessante.
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